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    Você falou sobre suportar um sistema. E disse que não sabia o que eu e o Matheus havíamos falado. A gente falou o esperado, que tem que estudar, que é estressante (!), que respeitar os professores é de suma importância, que a rotina e a perseverança são a chave. Que tudo bem sair com seus amigos, se divertir de uma forma equilibrada (não moderada, veja bem). O de praxe. Mas em outro dia o Raphael me falou que ficou orgulhoso porque eu passei em muitos cursos, especialmente porque eram considerados de homem. Nunca pensei que ele fosse dizer isso.

   Enfim, você falou em suportar um sistema, e eu acho que isso é desapego demais do humano nas pessoas. Meu rosto vai aparecer no cartaz como o de todo mundo, só que eu não apareci na Veja. Não acho que aconselhar os outros seja ser uma peça, porque eu falei como humana e os outros ouviram como humanos, eu espero. Não é sobre suportar ou não o sistema Bom Jesus. Talvez seja na “big picture”, mas ver o mundo dessa forma é perder a individualidade e a essência de tudo que é. E ninguém vive na “big picture”.

   Na realidade eu acredito que a Ana e o Raphael e outros sentiram orgulho, não especialmente de mim, mas vários ou alguns. Cada qual com seu favorito. Acredito porque quando eu dava aula de inglês eu senti isso quando a nota era mediana num bimestre e no outro eu sentia a melhora nos alunos e alunas, quando a menina não chorou na hora da prova de pânico e quando acertaram mais. Fiquei contente com eles e comigo mesma por talvez ter passado meu conhecimento e um pouco do meu amor por línguas. E com alguns, fracassei. Então acho que quando alguém que passa por suas mãos sucede, surge orgulho. E não é esse o objetivo de um professor? Ensinar, e ver a mensagem funcionando; então, amor. Se não tem amor por trás da palavra, professor ser para quê? Se não há amor ao ver os frutos, não há vontade em transmitir e quem for esse professor não é professor. Em cada palavra que eu falei, fui professora.

   Quis ajudar, não cada um, pois nem conheço todos, mas ajudar quem quisesse ou precisasse ouvir. Não é ser peça, é ser. Além do mais, não seria essa uma forma de mudar o sistema à minha maneira? O problema pra você, imagino, é a mecanização do conhecimento, você luta da sua forma. O que me incomoda é que ninguém fala pra ver como as coisas são maravilhosas. Ninguém fala pra ver as coisas sem significado, às vezes. De certa forma, eu tentei mostrar falando. Nada é tão gratificante quanto ver um “que” em uma frase e saber classificá-la, ou resolver um daqueles exercícios de física que englobam um montão de coisas, que parece difícil, mas se torna lindo quando vira processo de resolução e a resposta meio que surge. Tentei passar que tem que ver encanto no que provavelmente vai ser estresse.

   Um dia você disse “Escute tudo o que te falam com estranhamento”. Eu gostaria de acrescentar “e depois, encanto.” Acho que não ver com encanto tira o humano do homem e a existência das coisas, justamente por tornar tudo a “big picture”, sendo que a realidade não é só “big picture”, é também as nuances, as ações pelas ações. Portanto, digo que não é sobre ser a peça ou não, é mais sobre o que é que as palavras minhas e do Matheus vão mudar na vida das pessoas, o detalhe ser mais importante que o conjunto. Te proponho ver com encanto, ver numa escala maior (escala grande=grandeza de detalhes, obrigada, Adriana.)(rsrsrssrrsrss risos). Não reli o texto, não sei se tem erros. Acabei de ler “Perto do Coração Selvagem”, da Clarice Lispector. Acho que ler/escrever é como (ouvir um)sotaque/falar, se se convive muito com um, pega. Reli sim, quanto drama, mas é isso aí mesmo.